Conpresp quer tombar ruínas de antiga pedreira de quartzo localizada no Jaraguá

Foto 1: muro remanescente de antiga pedreira localizada no bairro Jaraguá
Foto 1: muro remanescente de antiga pedreira
localizada no bairro Jaraguá
A maioria dos jaraguenses não sabe que nas imediações do bairro Jaraguá há estruturas remanescentes de uma pedreira que era usada para exploração mineral no início do século 20. Eu também não sabia até que, no dia 15 de outubro de 2016, um técnico da Sabesp publicou no Facebook um documento no qual o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) abre um processo para o tombamento da mesma.

Tal documento intitulado "Resolução nº 16 / Conpresp / 2016" fez com que eu sentisse o cheiro de uma boa história, um verdadeiro chamado à aventura. Só que para contar essa história eu precisaria de imagens. Aí, por um instante, as portas se fecharam para mim, pois, de acordo com a referida resolução, a pedreira está posicionada no território da Itakupê ("atrás da pedra", em português), uma aldeia Guarani Mbya onde eu não tinha e não sabia como conseguir uma autorização para entrar. "É melhor desistir disso", pensei.
Foi então que - no sábado, 22 de outubro de 2016 - tive a ideia de lançar um apelo em minha página no Facebook. Publiquei um mapa (com uma imagem proveniente do Google Earth) com uma trilha perto da qual a pedreira poderia estar (foto 2). Minha intenção era que alguém fosse comigo até o lugar e me ajudasse a descobrir um jeito de entrar na região legalmente.

Foto 2: mapa com a trilha (em vermelho) que leva até a pedreira "atrás" do Pico do Jaraguá (clique para ampliar).
Foto 2: mapa com a trilha (em vermelho) que leva até a
pedreira "atrás" do Pico do Jaraguá (clique para ampliar).
Não consegui de fato um ajudante com minha investida no Facebook, mas percebi que muitas pessoas se interessaram pela história e isso me animou. Logo, na tarde do mesmo sábado fui até a entrada da aldeia para conversar com os moradores, tentar assimilar a região e encontrar um jeito de fotografar e filmar as ruínas da pedreira.

- As nossas bisavós, que moravam aqui há muito tempo, nunca viram qualquer movimento de trabalho naquela pedreira. Então, ela é muito antiga mesmo! - contou-me um bairrista ex-funcionário da mineração da Bombril, empresa esta que funcionou nas proximidades há várias décadas, conforme escrevo no artigo "Expedição fotográfica à Vila Chica Luisa".

- Pega a trilha e vai lá dentro! Daí você pede autorização para algum índio - disse-me outro morador.

- Hey, você lembra do caso do Tim Lopes? - um terceiro tentou me assustar.

Para quem não sabe, o Tim Lopes foi um jornalista que trabalhava para a Globo em 2002, ano em que teria sido sequestrado e morto no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, enquanto investigava com uma microcâmera escondida no corpo um baile funk promovido por narcotraficantes.

Como eu não levava nenhuma microcâmera e não estava investigando traficantes, ignorei a frase sobre o Tim Lopes e segui os conselhos dos demais. Peguei a trilha e a mais ou menos 100 metros adiante encontrei uma bifurcação. Entrei na rua à esquerda e cheguei à uma cabana indígena, que estava vazia.

Foto 3: placa que demarca o início do território da aldeia Itakupê e o início da trilha de terra que leva à pedreira
Foto 3: placa que demarca o início do território da aldeia Itakupê
e o início da trilha de terra que leva à pedreira
Voltei até a bifurcação e peguei o caminho da direita. Segui mais 100 metros abaixo e encontrei um pequeno sítio. Um cachorro me viu de longe, começou a latir e veio em minha direção. Outros o acompanharam, todos muito bravos. Afastei-me um pouco, um pouco mais e mais, enquanto eles vinham todos em torno de mim latindo e rosnando.

Uma mulher magra apareceu no portão do sítio, chamou os cachorros para meu alívio e veio saber o que eu queria. Ela disse que não era índia e que morava ali há mais de 50 anos com a mãe. Depois, me pediu para voltar no dia seguinte, pois o tio dela estaria ali e ele poderia me levar até a pedreira.

Na tarde de domingo, 23 de outubro de 2016, voltei então à entrada da aldeia, que estava fechada com arame farpado. "Bom, acho que agora é a hora de desistir dessa reportagem", pensei.

Retrocedi. Fui até o restaurante Rei da Pamonha, que fica a mais ou menos 1 quilômetro dali. Pedi uma pamonha doce com queijo e um suco de milho. Fiquei ali pensado no que fazer. Decidi voltar, passar pelo arame farpado e tentar encontrar algum índio que pudesse me ajudar.

Logo, uma hora mais tarde retornei à entrada da aldeia e o arame farpado havia sido retirado. Notei que havia marcas de pneu no solo. Alguém acabara de passar com um carro por ali. Dois garotos de não mais do que 12 anos estavam perto da passagem. Perguntei a eles se eles conheciam algum índio. Expliquei-lhes minha história e o que queria fazer. 

Fui subindo a trilha devagar e os meninos vieram comigo espontaneamente. Eles nunca haviam estado lá e ficaram tão curiosos quanto eu acerca da pedreira. Assim, caminhamos por aquela curta estrada de barro e encontramos um grupo de índios na mesma cabana que no sábado estava vazia.

Uma índia pediu que eu entrasse em outra trilha e me encontrasse com o cacique Ari Augusto Martim e que pedisse autorização a ele. Esta outra trilha, que eu não havia notado antes, está posicionada mais acima no terreno. Enquanto subíamos vimos um espaço grande coberto de gramíneas onde pastavam vacas e cavalos. Percorremos 200 ou 300 metros até chegarmos à casa do cacique, o guardião local, para quem me apresentei e disse o que viera fazer ali.

- Quem lhe enviou aqui? Qual empresa? - o cacique quis saber - Outras pessoas como você já vieram aqui, elas fazem seus projetos sobre os índios, ganham muito dinheiro com isso... - ele ia me dizendo, quando eu o interrompi.

- Não pretendo escrever sobre os índios - disse-lhe - eu só quero fotografar a pedreira. Além disso, eu não tenho uma empresa que me paga para fazer isso. Nenhuma empresa me enviou aqui. O meu Jornalismo não é comandado de cima para baixo. O Jornalismo que eu faço aqui parte de dentro de mim para fora - expliquei-lhe.

O cacique, de 75 anos, convenceu-se com as minhas palavras. Ele disse que podíamos entrar, contanto que eu não fizesse imagens dele, dos outros índios e de nenhuma parte da aldeia. Concordei com os termos. Então ele pediu que eu e os meninos que subiram a trilha comigo o seguíssemos.

Passamos, assim, pelo terreno da casa do cacique e entramos em outra trilha. Um horizonte mais amplo abriu-se para nós. Vimos um paredão natural muito íngreme com 150, talvez 200 metros de altura, no qual árvores longilíneas se amontoavam.

- Que lugar lindo! - exclamou um dos garotos.

- Que árvores tão altas! - comoveu-se o outro.

Descemos o terreno. Entramos em uma mata mais fechada. Dali a 100 metros encontramos o primeiro remanescente da pedreira, uma pequena guarita. Aproximei-me para fotografar. Quando cheguei a um metro levei algumas picadas.

- Abelhas! - vociferei.

- Se afasta! - gritou Ari.

Fugimos. Entramos mais a fundo na mata. Percebi que havia levado três picadas, uma no ombro direito, outra no quadril e outra no braço esquerdo. Não demorou e elas começaram a doer como uma Benzetacil. Prosseguimos por outros 100 metros e encontramos o outro remanescente da pedreira, um impressionante paredão de pedras, confira:


Na volta, fotografei e filmei também a guarita, só que de longe por causa das abelhas, observe:



Retornamos para a aldeia onde passei um tempo ouvindo algumas histórias de vida do cacique Ari, que considero um dos guardiões da cultura guarani no Jaraguá e guardião da aldeia Itakupê. Depois de ouvi-lo, meu respeito por ele aumentou.

No fim, eu e os dois garotos voltamos pela mesma trilha e nos despedimos no ponto que demarca o início do território dos índios. Estávamos, nós três, felizes por termos estado lá e visto com nossos próprios olhos aquele lugar.

Foto 4: paredão de pedras remanescente da pedreira de quartzo
Foto 4: paredão de pedras remanescente da pedreira de quartzo
Foto 5: detalhe do paredão de pedra
Foto 5: detalhe do paredão de pedra
Foto 6: guarita fotografada de longe por causa das abelhas que fizeram casa dentro da edificação
Foto 6: guarita fotografada de longe por causa das abelhas
que fizeram casa dentro da edificação
Foto 7: detalhe da guarita clicado à distância com aplicação de zoom
Foto 7: detalhe da guarita clicado à distância
com aplicação de zoom
São essas, portanto, as ruínas que a Resolução nº 16 do Conpresp abriu processo de tombamento, o qual entrou em vigor no dia 15 de outubro de 2016, data em que foi publicado na página 88 do Diário Oficial da Cidade.

De acordo com a referida Resolução nº 16, o muro de pedra e a guarita cujas imagens pode-se observar ao longo dessa reportagem "são testemunhos das atividades de mineração de quartzo do início do século 20" e as mesmas estão "vinculadas ao processo industrial e de urbanização da cidade de São Paulo".

Esse documento também especifica que o estudo de tais estruturas pode revelar novos dados acerca da história da capital paulista e que elas poderão agregar valor afetivo e referencial para a população geral.
Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

Comentários

  1. Cara, vc poderia ser guia turístico na região. É pedreira ou muralha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, amigo! A muralha e a guarita cujos relatos, fotos e vídeos você pode ler/ver ao longo dessa reportagem são estruturas remanescentes de um antiga pedreira de quartzo que, conforme Resolução n° 16 do Conpresp, passam a ser oficialmente objetos de interesse para tombamento histórico.

      Excluir

Postar um comentário