Expedição fotográfica à Vila Aurora

Estação Vila Aurora - instalada em 2013 - deixou tudo mais perto para os moradores locais, mas só para quem pode pagar a cara passagem da CPTM
Estação Vila Aurora - instalada em 2013 -
deixou tudo mais perto para os moradores locais,
mas só para quem pode pagar a cara passagem
da CPTM
- A Vila Aurora é daquele poste em diante - diz-me um morador da região referindo-se à coluna de concreto ao lado da estação de mesmo nome. - Do poste para cá é Jardim Santa Lucrécia - completa.

É 29 de outubro de 2016. São aproximadamente 15 horas quando passo a pé pelo referido poste e entro na Vila Aurora, local de mais uma edição do projeto "Expedições fotográficas aos vilarejos do bairro Jaraguá".

Margeio - pela rua Acaricuara - os trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Entro na rua Carixo e depois na Curruira, onde encontro o casal Mateus Dantas Deolino, 21 anos, e Bruna da Cunha Dantas Deolino, 18 anos, em uma garagem/oficina. Ele está com o filho Enzo no colo. Ela, por sua vez, está sentada em um sofá. Explico para eles o meu projeto. Eles resolvem colaborar contando-me algumas histórias do vilarejo. Em seguida, me passam um banquinho de madeira, no qual me sento. Neste lugar, enquanto eles falam, eu anoto tudo em um tablet:

- Olha, aqui é um lugar muito legal para se viver porque, além de ser tranquilo, todo mundo se conhece. E de uns tempos para cá as coisas melhoraram bastante no que diz respeito ao comércio. Mercados como o Teixeira vieram para cá e, assim, nós não precisamos mais ir muito longe para comprar mantimentos - relata Deolino.

O CEU Pêra Marmelo foi inaugurado em 2003
O CEU Pêra Marmelo foi inaugurado em 2003
- A chegada da estação Vila Aurora, em 2013, mudou essa vila. No passado também não havia muitos ônibus que passavam por aqui. Ou seja, antes era tudo mais longe. Muitas vezes tínhamos que ir à pé até a estação Jaraguá para podermos nos deslocar para lugares mais distantes - conta Bruna.

- Na questão da educação, o que aconteceu de bom nos últimos tempos foi a instalação do CEU Pêra Marmelo, do EMEI Maria Dailce, do EE Ministro Oscar Dias Correia. Antes disso só podíamos contar com o EMEFM Antônio Alves Veríssimo, que foi a primeira escola da região - explica Deolino.

- Um problema antigo aqui dessa vila era que cinco ou seis vezes ao dia havia explosões na pedreira da Riúma, que fica do outro lado dos trilhos - informa Bruna. - E essas explosões faziam com que as estruturas das casas aqui do vilarejo estremecessem.
Mapa com a posição da Vila Aurora dentro do bairro Jaraguá
Mapa com a posição da Vila Aurora dentro do bairro Jaraguá

- Só depois de muita reclamação é que as explosões diminuíram. Agora eles [os profissionais da Riúma] só têm permissão para fazê-las uma vez por dia, o que geralmente ocorre por volta das 18h, 19h. Nesse horário, tudo por aqui treme - declara Deolino.

- Uma coisa interessante desse lugar é que aqui na rua de baixo tem uma cachoeira. Os moradores mais antigos nos contam que, nos idos de 1980, as pessoas tomavam banho e lavavam roupas aí, mas hoje esse lugar não passa de um esgoto - lamenta Bruna.

- É que naquela época a água encanada não chegava aqui na Vila Aurora, por isso, as pessoas usavam a cachoeira - explica Deolino. - Mas se nós quiséssemos beber água, nós tínhamos que buscá-la em uma mercearia que ficava lá no Jardim Bandeirantes, onde hoje é a igreja dos Mórmons.

Quando eles mencionam "cachoeira", a minha curiosidade sobe para o nível 9,9 em uma escala de 0,0 a 10,0. Pergunto-lhes como faço para acessá-la. Eles me mostram o caminho. Eu vou.

Percorro a Curruira e, pouco antes dela 'quebrar' à esquerda, desço um escadão à direita. Ouço o som da água batendo na rocha, mas não posso ver a cachoeira. A cada passo que dou o ruído aumenta. Entro na rua Acampamento Acaricuara. Os trilhos da CPTM passam logo atrás dela. De onde estou, olho à minha esquerda e agora posso vê-la:



A apenas 20 metros daqui encontro-me com Osvaldo Pereira, 52 anos, morador do bairro Jaraguá há décadas. Ele me conta que até o fim dos anos 1980 as pessoas faziam pequenas represas com a água daquela cachoeira e ali lavavam não apenas as roupas, mas também as louças e utensílios de cozinha. De acordo com Pereira, as nascentes de águas límpidas do riacho vinham do Jardim Bandeirantes e de outras vilas mais altas do bairro.

- Depois que começaram as construções das casas da cidade D'Abril II, esse riacho passou a receber esgoto. Mais ou menos na mesma época chegou a água encanada e, então, as pessoas que usavam a cachoeira pararam com esse costume - revela Pereira.

Pereira diz que esta parte do distrito é considerada área rural. Segundo ele, 60 ou mais residências locais não pagam o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), mas pagam uma taxa ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a qual ele não disse qual é, mas que provavelmente é o Imposto Territorial Rural (ITR).
A Vila Aurora com o CEU Pêra (no canto esquerdo)
A Vila Aurora com o CEU Pêra (no canto esquerdo)
Os picos do Jaraguá e do Papagaio vistos a partir da Vila Aurora
Os picos do Jaraguá e do Papagaio vistos a partir da Vila Aurora
Depois de ouvir o Pereira, afasto-me do lugar para conhecer outras partes da Vila Aurora. Na medida em que faço isso, o ruído da cascata de esgoto cessa gradualmente em meus ouvidos.

Nas ruas mais acima vejo que o lugar tem muitos bares, pequenos restaurantes, mercearias, mercados e lojas de roupas, entre outros tipos de comércios. Na área também está a sede do Alvorada Futebol e Samba. Por fim, subo até a avenida Alexios Jafet onde, depois de fotografar os dois picos do bairro Jaraguá, concluo minha expedição à Vila Aurora.

Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

Comentários

  1. Ocupação indiscriminada de locais pitoresco de um cartão postal natural de São Paulo.

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