O artesanato dos índios guaranis do bairro Jaraguá, em São Paulo

Vivem no bairro Jaraguá, na periferia noroeste da cidade de São Paulo, cerca de 900 índios da etnia Guarani Mbya, segundo estimativas feitas por historiadores, jornalistas e outros profissionais que passam pelas aldeias locais para realizarem diferentes atividades sociais. Boa parte desses índios sabe desenvolver algum tipo de artesanato, porém, não mais do que 25 deles comercializam as peças que produzem e, assim, fazem desse ofício uma fonte de renda.

Peças de artesanato produzidas pela índia Marina da Silva Ara Poty, moradora da Tekoa Pyau, uma das aldeias do TI Jaraguá
Peças de artesanato produzidas pela índia Marina da Silva Ara Poty, moradora da Tekoa Pyau, uma das aldeias do TI Jaraguá

O Território Indígena (TI) Jaraguá é composto por (até agora) seis aldeias relatadas pelos guaranis, dentre as quais três possuem um ativo artesanato comercial beneficiado pela proximidade a um dos portões de entrada do Parque Estadual do Jaraguá (PEJ) que, aos finais de semana, conta com grande frequência de turistas (o público-alvo do mercado de artesanato local), observe:
  • Tekoa Ytu (Aldeia da Cachoeira)
    Fundada em 1964 próxima ao portão de entrada do PEJ.

  • Tekoa Pyau (Aldeia Nova)
    Instalada próxima ao portão de entrada do PEJ.

  • Tekoa Itawera (Aldeia da Pedra Reluzente)
    Implantada junto ao portão de entrada do PEJ.

  • Tekoa Itakupe (Aldeia Atrás da Pedra)
    Criada recentemente atrás (para quem está no bairro) do Pico do Jaraguá.

  • Tekoa Itandy (Aldeia da Pedra Amarela).
    Fundada recentemente próxima ao SBT, na via Anhanguera.

  • Aldeia de nome desconhecido
    Fundada recentemente entre os Escoteiros do Brasil e o PEJ.
Maria Ara Poty, uma das mais tradicionais artesãs do TI Jaraguá
Maria Ara Poty, uma das mais tradicionais artesãs do TI Jaraguá
Uma das mais tradicionais artesãs da região atende pelo nome de Maria Ara Poty, possui 50 anos, mora no TI Jaraguá há 27 e trabalha no ramo há 26, talvez por isso o seu comércio de artes seja um dos mais promissores do lugar. Ela conta que chega a vender 200 peças por mês atuando apenas nos finais de semana e feriados, "meu artesanato já foi adquirido até por turistas dos Estados Unidos", orgulha-se. Maria monta sua barraca em uma calçada da Estrada Turística do Jaraguá, na porta de sua casa, na Tekoa Itawera, a aldeia mais próxima da entrada do PEJ.

Em uma rua adjacente, na Tekoa Pyau, a índia Marina da Silva Ara Poty expõe suas peças de artesanato em duas mesas posicionadas próximas a um cruzamento, bem onde os carros passam lentamente e cujos passageiros não têm como não notá-las, "aqui o que sai mais são os arcos e flechas, os chocalhos e as zarabatanas", conta. Ela vende pouco mais de 20 peças mensais.

Marina é uma guarani de 49 anos, 13 dos quais vividos no TI Jaraguá. Possui cinco filhos e oito netos. Cursou até a 8ª série e trabalhou durante um tempo como Agente de Saúde Indígena, emprego que deixou há pouco porque "outras pessoas ficaram com muita inveja". Hoje, o artesanato é a sua única fonte de renda.

Outra índia, de nome Virgínia Veríssimo Jera Poty, 50 anos, comercializa as peças que produz apenas para visitantes que vão realizar atividades dentro das aldeias do TI Jaraguá, isto é, ela não trabalha na rua. Suas vendas não ultrapassam 10 peças por mês, mas Virgínia tem outro trabalho. Ela é professora no CECI Jaraguá, onde dá aulas durante a semana para crianças de até 5 anos, "ensino brincadeiras e artesanato", explica.

O PROCESSO DE FABRICAÇÃO DO ARTESANATO INDÍGENA DO BAIRRO JARAGUÁ


Fabricação de artesanato na Tekoa Ytu, em 2008.
Fabricação de artesanato na Tekoa Ytu, em 2008.
Virgínia Jera Poty diz que compra as matérias-primas para a fabricação de seus artesanatos em outras aldeias, "geralmente em Parelheiros ou em Ubatuba", comenta. Mas esse procedimento não é o mesmo para todos os artesãos do TI Jaraguá.

Maria Ara Poty e Marina Ara Poty, por suas vezes, dizem que retiram a maior parte da matéria-prima que precisam das matas do PEJ. A taquara, o bambu, o coqueiro para se fazer o arco e flecha, além da madeira de uma árvore que os guaranis chamam de urupá, por exemplo, vêm do Pico do Jaraguá. Já as penas, tanto podem ser compradas em outros lugares quanto podem ser aproveitadas de animais da própria aldeia.

Há nas aldeias da região um grupo de índios responsáveis por atividades na mata, os quais buscam na floresta os materiais necessários para que os artesãos possam desenvolver seus trabalhos, "a gente tem a lua certa para colher o material, que é a lua nova. Se cortar fora do tempo, a matéria-prima pode rachar, se quebrar ou estragar", argumenta Maria Ara Poty, "depois de colhida, a madeira leva uma semana para ser preparada. Assim, só depois de sete dias é que podemos começar a fazer o artesanato", completa.

"O jeito de fazer o artesanato é quase igual para todo mundo aqui", segundo Marina. Virgínia, no entanto, diz que cada artesão tem o seu jeito de fabricar as peças. Seja como for, usa-se ferramentas como formões e pirógrafos, além de cola e tintas, entre outras coisas, no decorrer do processo.

Para preparar as tintas, Maria Ara Poty retira a matéria-prima de plantas cultivadas nas cercanias, "nós temos o urucum, que é a cor vermelha, o açafrão, que é a amarela, tudo plantado aqui dentro da aldeia", revela. Ela explica que cada cor tem uma função específica, "a vermelha serve para evitar que coisas ruins atinjam uma pessoa, a amarela é liberdade, o verde é esperança, o preto é luto, o azul é tranquilidade, o laranja é o sol é a alegria", diz.

O SIGNIFICADO DAS PEÇAS DO ARTESANATO INDÍGENA DO BAIRRO JARAGUÁ

Cada peça do artesanato produzido pelos índios guaranis do bairro Jaraguá, em São Paulo, possui um significado que pode estar ligado ao mundo espiritual, à atividade da guerra, à cura de males e doenças físicas e, também, à decoração, como você poderá ler a seguir.

Esta mini-enciclopédia de peças de artesanato só pode ser criada graças aos depoimentos das artesãs Maria Ara Poty, Marina Ara Poty e Virgínia Jera Poty. As falas dessas três índias guaranis foram integradas para formar os verbetes, confira:

JAGUATIRICA

Peça produzida por Marina Ara Poty
Peça produzida por Marina Ara Poty

A jaguatirica é um mamífero carnívoro em vias de extinção presente nas matas do PEJ. Sua reprodução artesanal em madeira serve para decoração, para espantar os maus espíritos e trazer boas energias para dentro de casa, segundo a cultura guarani.

COPOS

Copos fabricados por Maria Ara Poty
Copos fabricados por Maria Ara Poty

Os copos são usados pelos índios para tomar água e colher mel. Na casa de reza, eles também servem para conter em si a água que o pajé utilizará para batizar as crianças.

CESTOS

Cestos produzidos por Virgínia Jera Poty
Cestos produzidos por Virgínia Jera Poty

Os cestos são recipientes utilizados para colher frutas, legumes e verduras, entre outras coisas. Eles também podem servir como peças de decoração.

FILTRO DE SONHOS

Filtro de sonhos produzido por Marina Ara Poty
Filtro de sonhos produzido por Marina Ara Poty

O filtro de sonhos é um objeto místico voltado para a realização de projetos pessoais. Ele pode ser pendurado em uma parede, porta, passagem, entrada, sala ou outro lugar de uma habitação. Segundo os índios, ele energiza o ambiente e os indivíduos e ajuda estes a conquistarem seus desejos e objetivos de vida.

CACHIMBO

Cachimbo produzido por Maria Ara Poty
Cachimbo produzido por Maria Ara Poty

O cachimbo é uma das peças mais sagradas da cultura guarani. Tanto é assim que ele não pode passar pelas mãos de uma pessoa que não acredita em Deus (seja esta pessoa um índio guarani ou de outra etnia).

Os guaranis creem que o deus deles, que eles chamam de Nhanderú (Deus Verdadeiro) atua no cachimbo e que, por isso, o uso do cachimbo pelo pajé pode curar muitas doenças e salvar muitas vidas.

Este objeto é, portanto, muito usado dentro das chamadas casas de reza, onde são realizados os rituais indígenas. Lá, além de facilitar os processos de cura ele também é empregado para benzer lanças, arcos, flechas e outros itens de guerra.

CORUJA

Peça produzida por Marina Ara Poty
Peça produzida por Marina Ara Poty

As peças de artesanato em formatos de corujas servem tanto para trazer coisas boas quanto para dissipar coisas ruins. Segundo os artesãos guaranis, elas bloqueiam as energias negativas como inveja e raiva de pessoas que venham visitar a sua casa. A peça em artesanato também serve como decoração para determinados ambientes.

LANÇA

Lança de fabricação de Maria Ara Poty
Lança de fabricação de Maria Ara Poty

A lança é usada pelos guaranis em guerras e conflitos diversos como uma manifestação, tanto para ataque quanto para defesa. Sete dias antes de um conflito, a lança e demais apetrechos de guerra são benzidos na casa de reza por meio de um ou vários cachimbos. Para os turistas, ela pode ser utilizada como objeto de decoração.

COBRA

Peça produzida por Marina Ara Poty
Peça produzida por Marina Ara Poty

Assim como a coruja, uma peça artesanal representativa de uma cobra tem como finalidade dissipar energias ruins. Também serve como enfeite para mesas.

BRINCO

Brinco produzido por Maria Ara Poty
Brinco produzido por Maria Ara Poty

Os brincos são geralmente usados pelas meninas em festas dentro das aldeias. De acordo com os artesãos guaranis, eles oferecem proteção espiritual para quem tem fé.

CHOCALHO

Chocalho fabricado por Marina Ara Poty
Chocalho fabricado por Marina Ara Poty

Os chocalhos são usados nas casas de reza no decorrer de rituais sagrados dos guaranis. O som produzido por este objeto serve para dar ritmo para que as crianças possam dançar. Quando acompanhado de penas, ele serve para enfeite.

Conforme as crenças guaranis, quando uma pessoa que tem fé toca um chocalho os maus espíritos e as más energias se afastam.

PRENDEDOR DE CABELO

Peça produzida por Maria Ara Poty
Peça produzida por Maria Ara Poty

Um adereço de cabelo usado por meninas guaranis em festas e ocasiões especias das aldeias.

ARCO E FLECHA

Arco, flechas e suporte das flechas fabricados por Marina Ara Poty
Arco, flechas e suporte das flechas fabricados por Marina Ara Poty
Antigamente, os guaranis da região utilizavam arco e flecha para caçar passarinhos e outros animais de pequeno porte. Mas com o crescimento da selva de pedra e a diminuição das áreas de floretas naturais eles já não fazem mais isso.

Em eventos voltados para a demarcação de terras como a manifestação realizada no dia 28 de abril de 2017, no bairro Jaraguá, alguns índios vão às ruas de São Paulo portando arco e flechas.

Os turistas, por sua vez, compram os arcos e flechas artesanais para posteriormente usar como enfeite para suas salas, quartos e escritórios ou para levar de presente para outras pessoas.

COLAR E COCAR

Colar de fabricação de Maria Ara Poty
Colar de fabricação de Maria Ara Poty

Quando os guerreiros e guerreiras guaranis vão para um conflito, eles têm que usar no pescoço um colar, que serve para a proteção. Esse colar é benzido na casa de reza com cachimbo sete dias antes da batalha.

Já o cocar deve ser colocado na cabeça. Trata-se de uma peça que as índias guarani artesãs entrevistadas não haviam fabricado na ocasião da produção deste artigo, por isso, não há fotos.

O cocar é fabricado com penas que segundo as crenças guaranis produzem efeitos diferenciados. As penas de papagaio, por exemplo, conferem ao portador do cocar o dom da comunicação e as penas de gavião ou de coruja o ajudam a ter mais visão e a enxergar os perigos de longe.

MACHADINHA

Machadinha de fabricação de Marina Ara Poty
Machadinha de fabricação de Marina Ara Poty

Os guaranis usavam esse objeto antigamente para quebrar os coquinhos amarelos para assim poderem comer a parte branca dentro deles. Hoje em dia, porém, a machadinha serve apenas como objeto de decoração.

PULSEIRA

Pulseira produzida por Maria Ara Poty
Pulseira produzida por Maria Ara Poty

Pulseiras como essa da fotografia são usadas pelas meninas guaranis em dias festivos nas aldeias. Turistas compram para uso próprio no dia a dia, para presentear outras pessoas ou para guardar de recordação de suas visitas ao PEJ ou às aldeias locais.

ANEL

Anel e cesto produzidos por Marina Ara Poty
Anel e cesto produzidos por Marina Ara Poty

Assim como na cultura do homem branco, casais guaranis usam anéis para selar um compromisso amoroso.

FLAUTA

Peças produzidas por Maria Ara Poty
Peças produzidas por Maria Ara Poty

A flauta é um objeto que serve para a comunicação entre índios em meio a uma floresta ou outro ambiente natural. Com esse instrumento, um guarani pode produzir vários tipos de sons, cada um com um significado diferente.

O som de coruja, por exemplo, significa que o índio está em perigo e precisa de ajuda. Já o som de passarinho, indica que o guarani está feliz e, por isso, ninguém precisa se preocupar com ele. De acordo com os artesãos locais, com esse tipo de flauta também é possível imitar os ruídos de um leão, da jaguatirica ou ainda, o assobio de um sabiá.

ZARABATANA

Zarabatana fabricada por Marina Ara Poty
Zarabatana fabricada por Marina Ara Poty

No passado, os índios do Jaraguá usavam a zarabatana para caçar, mas isso não ocorre mais hoje em dia. Atualmente, nas escolas das aldeias, as crianças ainda são ensinadas a usar esse objeto por meio de atividades de tiro ao alvo. Fora isso, a zarabatana tem servido apenas como objeto de decoração e/ou de recordação para turistas que visitam o PEJ.

BOLSA

Peça fabricada por Marina Ara Poty
Peça fabricada por Marina Ara Poty

Esse tipo de bolsa é um objeto que não faz parte da cultura guarani. No entanto, ela é utilizada por algumas índias para carregar pequenos objetos quando estas vão para o centro de São Paulo. Os turistas compram para guardar de recordação.

PORTA-CANETAS

Porta-canetas produzido por Marina Ara Poty
Porta-canetas produzido por Marina Ara Poty

Obviamente, as canetas não fazem parte da cultura dos guaranis, de modo que este porta-canetas foi criado para agradar aos turistas que passam pelas aldeias do Jaraguá e que trabalham em escritórios ou em consultórios, onde poderão fazer uso desse objeto.

UM ARTESANATO COM DÉCADAS DE TRADIÇÃO

Enfim, o artesanato dos índios guaranis sobrevive há décadas no bairro Jaraguá. Seu método envolve a retirada das matérias-primas da natureza, a preparação prévia dos materiais e a produção efetiva de peças com teor espiritual, cultural e decorativo, os quais são adquiridos por turistas que frequentam a região principalmente nos feriados e finais de semana.


Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

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