Expedição fotográfica à Vila Chica Luisa

Escada (ao lado do Ecoponto) que leva à Vila Chica Luisa
Escada (ao lado do Ecoponto) que leva à Vila Chica Luisa
Ao lado do Ecoponto Alexios Jafet, na periferia de São Paulo, há uma pequena escada seguida de uma curta trilha de terra. Foi exatamente por ali que, na tarde do domingo 11 de setembro de 2016, entrei na Vila Chica Luisa com o objetivo de realizar mais uma edição do projeto "Expedições fotográficas aos vilarejos do bairro Jaraguá".

A Vila Chica Luisa, para quem não conhece, é um pedaço de terra transpassado pela Rodovia dos Bandeirantes, dentro do qual está localizado o Parque Estadual do Jaraguá e os seus dois picos, segundo informações de alguns moradores.

Mas há quem discorde. Ao andar pelas ruas da parte Leste da vila, percebo que determinados bairristas acham que ali é o Jardim Santa Lucrécia e outros não têm a menor ideia do que seja.

Seja como for, para atravessar do lado Leste para o Oeste da vila tenho que passar por cima da rodovia, o que faço por uma ponte que desemboca na portaria de um terreno da empresa Bombril.

Na guarita da empresa observo uma curiosa placa que informa que ali é um terreno onde se aplica o Plano de Recuperação de Área Degradada da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Na mesma placa lê-se, ainda, a inscrição "Mineração Bombril S/A", entre outras informações.
Posição da Vila Chica Luisa dentro do bairro Jaraguá
Posição da Vila Chica Luisa dentro do bairro Jaraguá

Ponte sobre a Rodovia dos Bandeirantes na Vila Chica Luisa
Ponte sobre a Rodovia dos Bandeirantes na Vila Chica Luisa
Portão de entrada da Bombril S/A
Portão de entrada da Bombril S/A
Placa fixada na guarita da Bombril S/A
Placa fixada na guarita da Bombril S/A
Vejo vários indivíduos se movimentarem para lá do portão de entrada. Chamo um deles, que vem até onde estou e se apresenta como Edmílson Caetano de Miranda. Pergunto a ele se ali é algum sítio e se é permitida a entrada de turistas.

- Na verdade, isso aqui é um terreno da Bombril. Não há nada para turistas aqui. Uma das trilhas que você está vendo leva até a minha casa. Eu sou caseiro aqui há seis anos. E a outra leva até a residência do outro caseiro. Somos duas famílias. Eu moro com minha esposa e minha filha.

- Moro há muito tempo no bairro Jaraguá e nunca vi nenhuma atividade da Bombril aqui. O que eles realmente fazem nesse terreno? - tento saber.

- Como eu lhe disse, estou aqui há apenas seis anos. Tudo o que sei é o que me contam. E o que me dizem é que essa área aqui era usada antigamente pela empresa para extrair um tipo de pedra que era ou é matéria-prima de um produto deles.

- E o que eles fazem aí hoje?

- Não fazem nada. Eles vêm aqui periodicamente. Pedem para manter tudo limpo. São muito cuidadosos. Outra coisa que me dizem é que algumas casas ali da entrada da Vila Homero foram construídas pela Bombril para os funcionários que trabalhavam aqui no passado. 

- É bom morar aí dentro?

- Ah, é bem tranquilo. A gente ouve a floresta, os bichos. Ouvimos também um pouco do barulho que vem da Rodovia dos Bandeirantes. Aliás, já vi muitos acidentes aqui e também muitos suicídios. Uma vez vi quando uma mulher pulou dessa ponte e foi atingida em cheio por um caminhão. Eu não gosto nem de olhar muito para essa ponte - revela Miranda.

Da minha parte, gostaria de entrar no local e verificar tudo com os meus próprios olhos, matar a curiosidade, porém, seria pedir demais ao caseiro que ele me deixasse fazer isso. Já fiz pedidos como esse outras vezes e nunca funcionaram. Logo, decido sair dali e avançar mais para dentro da vila.


Residência de Maria Benedita, na Chica Luisa
Residência de Maria Benedita, na Chica Luisa
Desço, então, pela rua Belém de Maria, onde coincidentemente uma moradora de nome Maria Benedita, 79 anos, me informa que vive ali desde 1958. Na frente de sua casinha sem portões, ela me fala sobre o passado daquele vilarejo.

- Aqui era tudo mato. Havia muito poucas residências. A maioria era sítio. Não tinha água, luz ou posto de saúde. Quando alguma pessoa adoecia, tínhamos que levá-la até o Hospital Sorocabana, na Lapa.

- Nestes quase 60 anos aqui, o que mais causou impacto na sua vida? - questiono.

- A construção da Rodovia dos Bandeirantes, que começou lá no final da década de 1970. Naquela época, o pessoal do governo veio aqui e disse que quem quisesse vender a propriedade, eles comprariam. E quem não quisesse, eles passariam por cima. E foi o que aconteceu - relata Maria.

- Como isso tudo aconteceu?

- Lembro de um caso em que uma senhora que morava ali embaixo foi avisada com três meses de antecedência que ela deveria abandonar a casa porque ali passaria a rodovia. Mas quando o prazo terminou, ela ainda estava lá. Então, eles vieram, pegaram tudo o que era dela e enfiaram dentro de um baú e, em seguida, passaram por cima da casa, como haviam dito que fariam. Depois disso, a única coisa que essa mulher pode fazer foi chorar.


Rodovia dos Bandeirantes há poucos metros da Vila Chica Luisa
Rodovia dos Bandeirantes há poucos metros da Vila Chica Luisa
Enquanto Maria conta suas histórias, eu olho a paisagem e projeto mentalmente o que ela diz como se tudo ocorresse bem na minha frente agora. Tento imaginar a dramaticidade das coisas daquele tempo longínquo.

- Ninguém podia fazer nada - diz Benedito Antônio Oliveira, 43 anos, filho de Maria, que em dado momento passara a acompanhar a fala de sua mãe -, era o tempo da ditadura, do Geisel e do Figueiredo.

"Ninguém podia fazer nada" é o que também ouço de Benedito Gaudino, 73 anos, que mora dez ou doze casas adiante na rua Belém de Maria. Ele diz que vive há 40 anos no lugar. Ele me conta que o governo começou a avisar sobre a construção da rodovia pela televisão.


Benedito Gaudino, 73, mora na Vila Chica Luisa há 40 anos
Benedito Gaudino, 73, mora na Vila Chica Luisa há 40 anos
Parte do Pico do Jaraguá vista a partir da rua Belém de Maria
Parte do Pico do Jaraguá vista a partir da rua Belém de Maria
Pico do Papagaio visto a partir da rua Belém de Maria
Pico do Papagaio visto a partir da rua Belém de Maria
Pico do Jaraguá visto a partir da rua Belém de Maria
Pico do Jaraguá visto a partir da rua Belém de Maria
- Os terrenos e as casas perderam o valor. E quem não queria sair tinha a casa derrubada assim mesmo.

- E como eles faziam isso?

- Ah, eles tinham uns tratores que ao invés de rodas possuíam esteiras. Pareciam tanques de guerra. Quem podia com aquilo? No fim, depois que terminaram esse trecho da Bandeirantes, eles construíram a ponte.

Como um Bandeirante desarmado sigo minha expedição. Me desloco até o Parque Estadual do Jaraguá (PEJ) cuja área de 492,68 hectares é uma das últimas restantes da Mata Atlântica da região Metropolitana de São Paulo.

A história do PEJ pode ser resumida da seguinte forma:
  • 1961: fundação;
  • 1983: tombamento pelo Condephaat;
  • 1984: tombamento pela ONU como Patrimônio da Humanidade.
O parque possui atualmente três trilhas oficiais, dois lagos, quadra, quiosques, anfiteatro com dois camarins, playground e outras atrações. Um funcionário que não quis se identificar disse que o lago de cima tem nascente própria e conta com carpas, tilápias e bagres. Já o lago de baixo foi poluído com esgoto proveniente do Córrego Ribeirão Vermelho (vide vídeo a seguir).

Flor de beleza singular fotografada no PEJ
Flor de beleza singular fotografada no PEJ
Macaco Prego fazendo um lanche da tarde no PEJ
Macaco Prego fazendo um lanche da tarde no PEJ
Lago do PEJ com nascente própria
Lago do PEJ com nascente própria
Anfiteatro do PEJ
Anfiteatro do PEJ
Dou uma volta pelo lugar. Vejo peixes, patos, macacos e outros animais. Subo até próximo do Núcleo de Educação Ambiental do PEJ. Ali perto estão instalados o auditório Jéssica Nunes Herculano, o Casarão Afonso Sardinha, um tanque de lavagem de ouro usado pelos europeus há quase 500 anos e a administração do parque. No caminho encontro um Jatobá (Hymenaea courbaril), cuja placa de identificação informa que aquela árvore possui 450 anos.

- Existe uma lenda que diz que esse Jatobá foi plantado pelo próprio Afonso Sardinha - me conta um gestor ambiental do PEJ que não quis me dizer o nome.

- Esse seria, então, o ser vivo mais antigo do bairro Jaraguá? - pergunto.

- Olha, pode ser que sim, pode ser que não. Mata adentro desse parque há outras árvores que podem ser ainda mais antigas. Algumas figueiras da Trilha do Pai Zé, por exemplo, parecem ser mais velhas.

Jatobá com 450  anos (localizado dentro do PEJ), o qual segundo uma lenda teria sido plantado por Afonso Sardinha
Jatobá com 450  anos (localizado dentro do PEJ), o qual segundo uma lenda
teria sido plantado por Afonso Sardinha
Copa do Jatobá de 450, um dos seres vivos mais antigos do bairro Jaraguá
Copa do Jatobá de 450, um dos seres vivos mais antigos do bairro Jaraguá
O gestor ambiental me conta que provavelmente há 100 ou mais anos aquele lugar já foi lavoura de café e me diz que ainda hoje crescem pés de café nas proximidades das trilhas, os quais eles [funcionários] arrancam.

Sobre o Casarão Afonso Sardinha, o gestor diz que o mesmo foi cedido em comodato por 20 anos para o Albergue da Juventude. A data já expirou, porém, o gestor reclama que durante o tempo que usaram o lugar, os integrantes do albergue entulharam uma senzala que fica no subsolo da residência.

Placa explica do que é feito o Casarão Afonso Sardinha
Placa explica do que é feito o Casarão Afonso Sardinha
Detalhe do Casarão Afonso Sardinha
Detalhe do Casarão Afonso Sardinha
Casarão Afonso Sardinha
Casarão Afonso Sardinha
Tanque de lavagem de ouro
Tanque de lavagem de ouro
Núcleo de Educação Ambiental do PEJ
Núcleo de Educação Ambiental do PEJ
Administração do PEJ
Administração do PEJ
Auditório Jéssica Nunes Herculano
Auditório Jéssica Nunes Herculano
Lago interditado do PEJ com barco da Ilha do Cardoso
Lago interditado do PEJ com barco da Ilha do Cardoso
A esta altura, a Vila Chica Luisa já me revelou muito mais surpresas do que eu imaginara. Mesmo assim, continuo a exploração. Sigo outros caminhos dentro parque. Chego ao segundo lago, que está interditado. Dentro dele vejo um barco do Parque Estadual Ilha do Cardoso e me pergunto "o que isso faz aí?".

Próximo desse lugar, ainda dentro do vilarejo, estão localizadas três aldeias indígenas da etnia Guarani Mbya, são elas a Tekoa Pyau, Tekoa Itawerá e Tekoa Ytu, esta última a menor terra indígena do Brasil com apenas 1,7 hectare. O bairro Jaraguá conta ainda com uma quarta aldeia, que fica nas proximidades do Conjunto Residencial Bandeirantes, a qual é denominada Tekoa Itakupê. Atrás dela há uma antiga pedreira de quartzo, desconhecida da maioria da população do distrito.

Como não tenho permissão para fotografar as aldeias, entro na Estrada Turística do Jaraguá. Subo 4,5 quilômetros até o topo do Pico do Jaraguá e do Papagaio. Ali observo uma edificação pertencente à TV Cultura e outra à Polícia Militar. Vou ao mirante, contemplo as paisagens, mas não muito, pois a neblina é intensa.

Pico do Papagaio
Pico do Papagaio
TV Cultura, no topo do Pico
TV Cultura, no topo do Pico
Polícia Militar, no topo do Pico
Polícia Militar, no topo do Pico
Pico do Jaraguá
Pico do Jaraguá
Pôster da cientista Lucélia Letta sobre a geologia do PEJ
Pôster da cientista Lucélia Letta sobre a geologia do PEJ
Dirijo-me à sala de informações onde vejo um poster sobre um trabalho de pesquisa intitulado "Riqueza patrimonial da diversidade geológica do Parque Estadual do Jaraguá, SP" produzido pela cientista da natureza formada pela USP, Lucélia Aparecida Letta, a qual mora no Centro do bairro JaraguáAntes de sair, faço uma pergunta inusitada ao guarda:

- Dado que o Pico do Jaraguá tem a maior média mundial de raios invertidos e que recebe três vezes mais raios descendentes do que as demais áreas da cidade de São Paulo, o que vocês aqui em cima fazem quando começam as tempestades?


- O procedimento padrão é que todos se abriguem na sala de informações. Então, em média somos cinco funcionários aqui em cima e nos encontramos nesta sala sempre que as tempestades estão para começar.


Vila Chica Luísa, no primeiro plano, vista a partir de um dos mirantes do Pico
Vila Chica Luísa, no primeiro plano, vista a
partir de um dos mirantes do Pico
É final de tarde, o PEJ já está fechando e eu, como um raio, desço os 4,5 quilômetros e, no sopé do elevado, concluo minha missão. Esta é a oitava edição do projeto "Expedições fotográficas aos vilarejos do bairro Jaraguá".

Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

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