Entrevista com o ritmista da Rosas de Ouro e Mestre da Bateria Na Mesma Batida, João Paulo Rodrigues

João Paulo Rodrigues, Mestre da Bateria Na Mesma Batida
João Paulo Rodrigues, Mestre da
Bateria Na Mesma Batida
João Paulo Rodrigues, 19 anos, é Mestre da Na Mesma Batida, uma bateria de samba com até agora 55 instrumentos, a qual é sediada no Parque Panamericano, dentro do bairro Jaraguá, periferia de São Paulo.

A Na Mesma Batida foi fundada em 2012 e já realizou vários desfiles e festas ao longo de sua existência. Seus fundadores ensinam voluntariamente as pessoas a tocarem instrumentos diversos. Em 2017, eles pretendem executar um grande evento no distrito, confira:
Rodrigues mora há um ano na região. Ele é estudante universitário de História e, desde 2011, é ritmista da escola de samba Rosas de Ouro. Como Mestre da Da Mesma Batida, ele tem como função ensinar os aprendizes, organizar eventos, convidar pessoas e, principalmente, realizar os ensaios.


Na entrevista conduzida pelo jornalista e editor do Jaraguá SP Post, Marinaldo Pedrosa, a qual você pode ler a seguir, Rodrigues aborda um pouco da história do samba no bairro, comenta como será o desfile de seu bloco em 2017 no distrito e fala sobre o futuro da Na Mesma Batida, entre outros assuntos:


Marinaldo Pedrosa (MP): qual a história da Bateria Na Mesma Batida?

João Paulo Rodrigues (JPR): a bateria na mesma batida surgiu em 2012 por meio de uma iniciativa dos jovens do condomínio CDHU Vila Verde que queriam ter um grupo de ritmistas para animar - na beira do campo - o time da comunidade, o Vila Loka, durante os jogos de várzea.

Ao longo do tempo, isso foi tomando uma proporção maior e mais intensa do que uma simples bateria de várzea. Daí, eu e outros dois amigos, o Nelson Mandela (nosso intérprete) e o Edson ou Edcinho (nosso diretor de manutenção dos instrumentos), começamos a investir grana nossa para comprar instrumentos porque não paravam de aparecer jovens de 8 a 29 anos que queriam aprender conosco nos nossos ensaios.

Logo, a bateria se desenvolveu para entreter a juventude próxima e para ser uma opção de cultura diferente das oferecidas até então. Antes de sermos escolhidos pelo Programa VAI da Secretaria de Cultura, nós já tínhamos uma bateria de 20 instrumentos.


Em 2016, a Na Mesma Batida reuniu cerca de 250 pessoas em desfile de carnaval no bairro Jaraguá. Foto: acervo Edson Henrique
Em 2016, a Na Mesma Batida reuniu cerca de 250 pessoas em
desfile de carnaval no bairro Jaraguá.
Foto: acervo Edson Henrique

MP: quantos carnavais vocês já fizeram no bairro Jaraguá?

JPR: desde 2012, o ano em que arrancamos e que tínhamos a base de instrumentos necessárias para um desfile, nós desfilamos nas áreas internas do nosso condomínio.

Em 2013, fizemos uma festa na rua Ângelo da Silva com presença de duas outras baterias provenientes da várzea, a do Detona 11 e a do Soknelas.

Já em 2014, retornamos para as áreas internas do condomínio. No Carnaval de 2015 desfilamos pela última vez dentro das áreas do condomínio e em 2016 saímos com o pé direito para a avenida Pinheirinho D'água com trajeto até a praça do Pan.

Esse último foi um modelo de sucesso porque o público seguiu o bloco. Pelo menos 250 pessoas foram junto com a bateria que estava com 35 elementos.


MP: quantas pessoas compõem hoje a Bateria Na Mesma Batida?

JPR: a diretoria é composta por mim e pelos outros dois fundadores. Nós costumamos tomar as decisões e rumos da batucada em conjunto. O número de ritmistas da bateria é relativo. Contudo, colando nos ensaios hoje com frequência eu tenho 15 garotos, mas até o Carnaval vira 25 ou 30. E também tem os nossos amigos, que colam pela amizade e pelo samba. Estes completam os 35 ou 40 elementos. 

Temos no estoque 55 instrumentos e para o desfile de 2017 estamos trabalhando com a hipótese de subir a bateria com todos. É só trabalhar que vingará.

A bateria atualmente tem 40 colaboradores-irmãos-amigos-ritmistas. Porém, até o Carnaval vai ter mais.

Na bateria, nós não costumamos ser seletivos. Se quiser fazer um samba pode fazer. Se for bom vamos canta-lo, vamos ensina-lo, trabalhar em cima dele as paradinhas, o andamento e etc. Todos são compositores e podem (com trabalho) ocupar funções de compromisso na bateria.

Hoje temos o Mestre(eu), o puxador-intérprete (Nelson Mandela) e o nosso diretor de manutenção Edcinho. Essa é a direção de bateria. O resto é colaborador-ritmista-morador do Jaraguá e compositor, embora seja eu quem faça grande parte das musicas.


Por enquanto, a Na Mesma Batida possui 55 instrumentos. Foto: acervo Edson Henrique
Por enquanto, a Na Mesma Batida possui 55 instrumentos.
Foto: acervo Edson Henrique

MP: os integrantes recebem algum cachê ou fazem tudo voluntariamente?

JPR: já fizemos apresentações pagas em eventos e apresentações voluntarias também. Varia conforme o contexto da apresentação. No carnaval, eles recebem a alegria de fazer o ritmo da festa e, além disso, alguma cerveja (risos)... para as crianças, guaraná (mais risos).


MP:  se alguém quiser fazer parte da Bateria na Mesma Batida, o que ele precisa fazer? Existe algum teste?

JPR: basta participar dos nossos ensaios. Estamos trabalhando com 3 ensaios semanais. Aos domingos no Bar do Lipe-Girica localizado na rua 9 (rua da feira de quarta). Às terças-feiras, no condomínio Orquídeas e às quintas no Condomínio Vila Verde. Todos na região podem participar.

Temos trabalhado com um público-alvo de jovens, mas todas as idades são bem vindas. É só ter coragem e disposição. Qualquer um que quiser consegue dominar a batida de caixa, de repique, de surdo, de chocalho, da peça que quiser pegar.

Com o tempo, vamos vendo se a pessoa tem muita dificuldade em um instrumento e tentamos ensinar outro. O teste é o compromisso da pessoa no ensaio.


MP: há mulheres na bateria?

JPR: sim, o público feminino está presente na bateria. Temos três frequentadoras dos ensaios que aprendem caixa, mas já estão avisadas que vão migrar para os leves (chocalho-agogô ou tamborim).

Nós também temos um número muito grande de meninas da comunidade que gostam apenas de sambar. Quanto mais melhor, tanto para aprender a tocar quanto para brincar o carnaval conosco.

Eu acho que tocando é mais significante e relevante. Uma ex-namorada minha tocava e neste carnaval ela vai fazer flat. Por isso, nos meus cálculos enquanto Mestre, já avisei as outras meninas que elas vão ser dos leves este ano.


MP: qual o repertório de vocês?

JPR: nosso repertório é o ritmo. Tocamos samba rasgado (enredo), partido alto (pagode) e toques afros que escuto e adapto. Aí fazemos funk com os instrumentos também (paradinha criada por um ritmista que acatei) e pegamos os melhores enredos na nossa percepção.

A lista deste ano tem de cinco a dez novidades e outras cinco obras que avaliamos serem as melhores para apresentar ao público, as quais são do Carnaval 2014 para trás. Chamamos estes sambas de "sambas nostalgias". Olha que de 2014 para cá só fazem três anos, mas já é muito tempo atrás. O tempo voa. Isso é nostalgia no  nosso entendimento (risos).

Agora, fora a lista que fazemos desde 2012 com alguns sambas da nossa preferencia, tem um samba enredo próprio nosso que eu compus em cima de outro samba enredo do RJ.

Ensaio da Bateria Na Mesma Batida (vídeo):

MP: vocês são a única bateria do bairro Jaraguá ou há outras?

JPR: o Jaraguá já teve inclusive uma escola de samba. Aliás, duas. Faço faculdade de História e gosto de resgatar essas coisas que parecem não ter valor, mas que para a história do bairro, dos negros e da cultura popular da cidade tem muita relevância.

É mais ou menos como os bailes funks de hoje em dia, mas  aí já é outra coisa, só que com o mesmo nível de importância para um historiador que for buscar o que a juventude do Jaraguá fazia há 50 anos.

As escolas antigas eram a Águia Batalhadora ou Guerreira do Jaraguá, da década de 1970. Essa escola durou até os anos 1980. Era localizada no Jaraguá antigo. A outra escola era a Acadêmicos do Jaraguá. Esta é mais recente, mas também parou as atividades e desfiles.

O carnaval e o samba não são feitos por preferência. Tem que ter muito amor envolvido. Muito mesmo.

Quanto às baterias, atualmente eu conheço a 100 Valor que surgiu igual a Bateria Na Mesma Batida e é até mais antiga, mas não desfila há uns dois ou três carnavais.

E tem o Só Vou se Você For, de Taipas, que este ano presta homenagem para a minha escola, a Rosas de Ouro. Eles desfilam pelo campeonato do grupo 3 da União das Escolas de São paulo (Uesp).

Além dessas, tem em Taipas a Carnabronks, que este ano se juntou com a Só Vou se Você For para saírem mais fortalecidas. O Carnabronks surgiu em um contexto superinteressante também.

Na nossa região até tem samba, resta fazer com que as pessoas saibam e participem cada vez mais. A Na Mesma Batida está aí para agregar e representar o bairro em qualquer lugar.


MP: em fevereiro vocês farão um desfile no bairro Jaraguá, como vai ser?

JPR: no dia 26 de fevereiro tentaremos reproduzir os moldes de um desfile de bloco ou até mesmo de escola de samba. Nossa bateria fará um "esquenta" no começo da avenida Pinheirinho D'Água a partir das 16h. Na sequência, seguiremos rumo ao bar do Lipe-Girica, após uma volta da referida avenida.

Vai rolar vendedor ambulante de cerveja, água e refrigerante (inclusive me procurem para regularizar a situação junto com a prefeitura porque senão a polícia breca) e até de alimento.

Por enquanto fechei com um vizinho que vende hot-dog e que já trabalhou conosco no ano passado. Mas pode ter mais vendedores, contanto que todos sejam reconhecidos pelo poder público municipal. Me procurem aqueles que estiverem interessados nisso.


MP: qual tem sido a média de público dos eventos da Na Mesma Batida?

Fazemos um carnaval com uma bateria de tamanho médio e um carro de som. Ano passado arrastamos pelo menos 250 pessoas. Este ano a expectativa é pelo menos dobrar.


MP: quanto tempo vai durar esse desfile?

JPR: o esquenta começa as 16h do dia 26 de fevereiro de 2017 no bar do Lipe-Girica. Tocaremos nesse lugar até umas 17h. Depois, andaremos até o começo da avenida Pinheirinho D'Água. A partir dela começaremos o desfile com trajeto até a praça. Subiremos a praça e retornaremos para rua 9. Isso vai até mais ou menos umas 19h30. 

Cantaremos os 10 sambas na sede. Já a partir das 21h tem a resenha que fica até meia noite ou mais, depende da intenção de cada folião (risos).

Da nossa parte, nós vamos garantir qualidade rítmica e samba pelo menos até às 21h. O bar do Lipe fica aberto diariamente até 1h. Lá tem porções e salgados diversos.


MP: o evento é grátis?

JPR: o carnaval é do povo para o povo, totalmente grátis. É claro, tem que comprar a cerveja ou o drink, o refrigerante, o salgado do filho. O custo é este. Temos a camisa do bloco que estará à venda e poderá custar de R$ 50,00 a R$ 60,00, depende de quantas encomendarmos.



MP: quem pode participar? Qual a faixa etária?

JPR: qualquer pessoa pode participar. Sambar faz bem à saúde. É possível participar como expectador, como folião ou, se quiser, pode fazer samba conosco também. A faixa etária é de 0 a 99 anos ou mais. Se colar alguém centenário eu vou dar meu máximo respeito (risos).


No início, a bateria tinha como finalidade apoiar o time de várzea Vila Loka fundado em 1999
No início, a bateria tinha como finalidade apoiar
o time de várzea Vila Loka fundado em 1999

MP: como estão os preparativos para o desfile?

JPR: os preparativos estão sendo feitos desde o final do carnaval 2016, por meio dos ensaios que aconteciam semanalmente e que atualmente rolam três vezes por semana. A expectativa é preencher todas as vagas de instrumentos e lotar mais que no ano passado.


MP: quais os projetos futuros da Na Mesma Batida?

JPRa Na Mesma Batida tem como objetivo futuro agregar e representar cada vez mais o nosso verde e lindo Jaraguá com a participação de habitantes do bairro e de todas as partes, das crianças, adultos, pais e mães. Planejamos e sonhamos em um dia (vai chegar se Deus quiser) disputar o campeonato da Uesp e trazer o caneco para cá.


MP: nossa entrevista está acabando... qual a sua mensagem final aos leitores do Jaraguá SP Post?

JPR: venham participar do nosso carnaval! Será uma experiência muito boa, com gente de muito respeito, irreverência e alegria. Precisamos da presença de cada um. Participem também da bateria e venham aos ensaios! Quem sabe até o Carnaval 2017, com muita dedicação, você não desfila conosco como ritmista?

Dizem por aí que ensino bem. Eu acho que só faço o que gosto. Muito obrigado pela oportunidade da entrevista e vamos rumo ao melhor carnaval de rua da região. Na parte rítmica será difícil pegar a Na Mesma Batida. Temos características próprias e um ritmo marcante e contagiante!

Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

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