Entrevista: cientista da natureza formada pela USP revela do que é feito o Pico do Jaraguá

A cientista da natureza, Lucélia Letta, expõe uma amostra do quartzo-sericita xistos com nítida foliação subvertical, no Pico do Jaraguá, localizado na periferia noroeste da  cidade  de São Paulo. (clique para ampliar) Foto: acervo Letta/Velázquez
A cientista da natureza, Lucélia Letta, expõe uma
amostra do quartzo-sericita xistos com nítida foliação
subvertical, no Pico do Jaraguá, localizado na periferia
noroeste da cidade de São Paulo. (clique para ampliar)
Foto: acervo Letta/Velázquez
Moradora do bairro Jaraguá, a cientista da natureza Lucélia Aparecida Letta estudou na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP) Campus Leste, onde formou-se após a apresentação da monografia "Relevância da diversidade geológica do Parque Estadual do Jaraguá para as atividades de ensino e divulgação das Ciências da Terra" sob a orientação do pesquisador referência em Geologia e Geomorfologia no Brasil, professor Dr. Victor Velázquez Fernandez, em 2009.

Posteriormente, em 2014, Lucélia finalizou um mestrado em Ensino de Ciências no Instituto de Física da USP, oportunidade em que defendeu a dissertação intitulada "As ações do(a) professor(a) no ensino fundamental I ao aplicar uma Sequência de Ensino Investigativa (SEI)".

Atualmente, Lucélia é professora de Física do ensino médio e leciona no Estado de São Paulo como contratada e efetiva no Município de Santana do Parnaíba. Ela também concede cursos de formação de professores para a prefeitura de Ferraz de Vasconcelos e é revisora de livros didáticos de Física e Ciências.


Nesta entrevista conduzida pelo jornalista editor do Jaraguá SP Post, Marinaldo Pedrosa, Lucélia expõe didaticamente como se originou e do que é formado o Pico do Jaraguá, que possui 1.135 metros acima do nível do mar e é, por isso, um dos elevados de maior destaque na paisagem da capital paulista, confira:


Entrevista com a cientista da natureza Lucélia Letta sobre o Pico do Jaraguá



Marinaldo Gomes Pedrosa: estamos no 17º ano do 3º milênio e, ainda hoje, há pessoas que acham que o Pico do Jaraguá é um vulcão adormecido que pode acordar a qualquer momento e cuspir fogo, cinzas e magma em nossas cabeças. O que você tem a dizer sobre isso? Do que é realmente feito o Pico do Jaraguá e seu parceiro, o Pico do Papagaio?

Lucélia Aparecida Letta: verdade! O mito do vulcão adormecido sobrevive geração após geração, principalmente entre os moradores das imediações do Pico do Jaraguá. Eu, como professora de Física e Ciências, geralmente ouço os falares de meus alunos sobre esse mito. Eu os deixo trazer para as aulas, onde busco conhecer a origem de tal afirmação. Sempre tenho como gênese desse mito as seguintes respostas: “minha avó contou”, “minha mãe ou pai me contaram”.

Trabalho com o conhecimento prévio de meus alunos e, a partir desse conhecimento, conduzo as aulas para um contexto mais geológico. Assim, posso abordar a geologia do Pico do Jaraguá e incentivá-los ao conhecimento geocientífico, ensinando-os sobre a sua formação. Neste contexto, abordo as definições de rochas ígneas, intemperismo, placas tectônicas, etc., e desmistifico a hipótese do vulcão adormecido.

Como pesquisadora busco promover a construção do conhecimento geocientífico sobre o Parque Estadual do Jaraguá (PEJ). Em meu trabalho de pesquisa fiz levantamentos contínuos sobre a formação geológica e geomorfológica do Pico do Jaraguá, além de um levantamento minucioso de referenciais teóricos de outros cientistas que já pesquisaram a formação do mesmo. Com base nesses estudos, portanto, podemos considerar que o Pico do Jaraguá não é um vulcão adormecido, mas, em uma linguagem mais informal da Geofísica, podemos dizer que ele é um elevado de quartzo intemperizado, ou seja, um elevado de quartzito.


Configuração geométrica das falhas normais nos quartzitos, no Pico do Jaraguá. Da direita para a esquerda: (i) deslocamento vertical entre os blocos e (ii) arranjo escalonado e mergulho subvertical entre os blocos (clique para ampliar). Foto: acervo Letta/Velázquez
Configuração geométrica das falhas normais nos quartzitos, no Pico
do Jaraguá. Da direita para a esquerda: (i) deslocamento vertical
entre os blocos e (ii) arranjo escalonado e mergulho subvertical
entre os blocos (clique para ampliar).
Foto: acervo Letta/Velázquez 

Não se pode afirmar que o Pico do Jaraguá e o seu companheiro Pico do Papagaio são montanhas ou morros. Tanto um quanto o outro não têm estrutura geológica que permita defini-los dessas formas. Então, é mais adequado denominá-los como elevados.

O Pico do Jaraguá e o Pico do Papagaio são constituídos por rochas do tipo metamórficas que fazem parte da faixa pré-cambriana paulista, do grupo São Roque, conhecidas essencialmente como rochas metamórficas e ígneas associadas, que apresentam diferentes graus de metamorfismo e deformação.

O quartzo é um dos vários minerais encontrados na constituição rochosa do nosso planeta. Além dos quartzitos há grande presença de mica. Estes dois minerais constituem os micaxistos, apresentando típica textura lepidoblástica e xistosidade acentuada.

Essas diversidades de elementos geológicos fazem parte do Pico do Jaraguá e do seu companheiro, o Pico do Papagaio, e eu tive a honra de estudá-los em meu trabalho de pesquisa.

Marinaldo: uma frase me chamou a atenção em seu trabalho de pesquisa sobre a diversidade geológica do PEJ. A certa altura, você escreve que a exposição das estruturas (falha, fratura, foliação e tafoni) ao longo da trilha do Pai Zé nos permite compreender com clareza os eventos geológicos que se sucederam na crosta terrestre. Ao ler isso, logo pensei nas cordilheiras dos Andes e do Himalaia, cujas montanhas são respectivamente - segundo determinadas teorias - o resultado de colisão de placas tectônicas e de colisão continental. Dado que aqui no bairro não há notícias de que tenha havido tais tipos de colisões, eu lhe pergunto: como, então, e quando o Pico do Jaraguá se elevou na paisagem do Planalto Paulista?

Lucélia: houve sim uma colisão de placas tectônicas e, o Pico do Jaraguá, é o que chamamos de "Morro Testemunho", pois ele sobreviveu aos processos de erosão ao longo do tempo.


Diferentes formas e tamanhos de tafoni desenvolvidos na superfície dos quartzitos do Pico do Jaraguá. (clique para ampliar) Foto: acervo Letta/Velázquez
Diferentes formas e tamanhos de tafoni desenvolvidos na
superfície dos quartzitos do Pico do Jaraguá. (clique para ampliar)
Foto: acervo Letta/Velázquez
A colisão de duas placas ocorreu durante a formação do supercontinente austral, o Gondwana. Isso aconteceu entre 700Ma a 500Ma (Ma é a símbolo para "Milhões de Anos"). Herança desse processo de colisão são as rochas metamórficas que compõem o Pico do Jaraguá e que vêm resistindo a esse processo de erosão. Por isso, ele é denominado como Morro Testemunho nos estudos da área de Geologia.


O Gondwana modelou todo o hemisfério sul continental com cadeias montanhosas e oceanos. Os Andes e o Himalaia são muito mais recentes que o nosso Pico do Jaraguá. O nosso Morro Testemunho fazia parte de um conjunto de paredões rochosos formados na era desse supercontinente, juntamente com mares e oceanos.

Oceanos e mares se fecharam ao longo do processo geológico da Terra e as cadeias de montanhas formadas nessa época tornaram-se evidentes. O processo de erosão foi desgastando esses paredões montanhosos e o Pico do Jaraguá, com sua formação mais resistente, vem sobrevivendo a esse processo. Certamente, daqui a alguns milhões de anos, ou até menos, não teremos mais o Pico do Jaraguá.
Vista parcial do horizonte superior do manto de intemperismo desenvolvido sobre anfibolitos no Pico do Jaraguá (clique para ampliar). Foto: acervo Letta/Velázquez
Vista parcial do horizonte superior do
manto de intemperismo desenvolvido
sobre anfibolitos no Pico do Jaraguá
(clique para ampliar).
Foto: acervo Letta/Velázquez

Marinaldo: muito bem, já que estamos falando sobre o que há dentro dos picos do Jaraguá e do Papagaio e como eles foram formados, não podemos deixar de fora a questão do ouro na região. Em linhas gerais, o que se sabe a respeito disso até agora?

Lucélia: ao pesquisar os dados históricos referentes ao Pico do Jaraguá obtive informações de que, nos séculos passados, houve muita extração de ouro no local: cavas minerais para extração de ouro.

A presença do ouro no Pico do Jaraguá tem origem hidrotermal. O ouro ali foi naturalmente depositado como veios nos metassedimentos. Isso deve ter ocorrido durante a fase de metamorfismo e deformações das unidades litológicas ao longo de milhões de anos.

O professor Dr. Celso Dal Ré Carneiro, pesquisador do Instituto de Geologia da Unicamp, que tem voltado sua pesquisa para a história da mineração paulista, publicou um artigo referente a extração de ouro no Pico do Jaraguá intitulado “Cavas históricas de ouro do Jaraguá: o que resta para se preservar?”, documento este no qual ele explica a origem hidrotermal do ouro e analisa as cavas encontradas na base do Morro Testemunho como prova da extração de ouro realizada há décadas e décadas. Nos dias de hoje não há mais extração desse minério, possivelmente por sua escassez.

Marinaldo: você gostaria de contar algum segredo ou algo incomum e pouco divulgado sobre os Picos do Jaraguá e do Papagaio? Você gostaria de falar sobre algo que eu não tenha perguntado sobre esse assunto? Fique a vontade.

Lucélia: é interessante ressaltar que os índios guaranis que vivem nas proximidades do parque definem, a partir de seus antepassados, o nosso Morro Testemunho carinhosamente como Jaraguá, que significa: Deus da Montanha ou Senhor da Montanha por causa da sua forma estrutural, imponência, grandiosidade e beleza.

Por isso, gosto de chamá-lo de Pico do Jaraguá, sem as divisões de “dois picos” (do Papagaio e do Jaraguá), pois são apenas deformações geológicas que evidenciaram as elevações. O conjunto é único.

Uma curiosidade é a grande quantidade de matéria orgânica que vem sendo depositada em alguns pontos da trilha Pai Zé, o que nos leva a considerar a possibilidade de formação de petróleo no local daqui a alguns milhões de anos.

Outro momento de curiosidade que tive ao fazer esses estudos foi quando identifiquei a partir de análises que há 800Ma toda essa região onde situa-se o que chamamos hoje de Jaraguá era parte de um oceano.

É importante que as pessoas tenham acesso ao conhecimento da região em que elas vivem e você tem realizado muito bem essa "ponte” de acesso à informação. Parabéns!


Saiba mais sobre Lucélia Letta


Além de promover a ciência, Lucélia contribui "por tabela" com o turismo local. Isso porque a administração do PEJ mantém, na sala de informações localizada no topo do Pico do Jaraguá, um banner ilustrado com informações resumidas da monografia "Relevância da diversidade geológica do Parque Estadual do Jaraguá para as atividades de ensino e divulgação das Ciências da Terra" defendida pela referida cientista da natureza na EACH-USP, em 2009, com orientação do professor Dr. Victor Velázquez Fernandez.


Banner sobre a diversidade geológica do PEJ desenvolvido por Lucélia e Velázquez, em exibição na sala de informações localizada no topo do Pico do Jaraguá. (clique para ampliar)
Banner sobre a diversidade geológica do PEJ
desenvolvido por Lucélia e Velázquez, em exibição na sala de informações
localizada no topo do Pico do Jaraguá.
(clique para ampliar)

O banner fica disponível aos turistas para leitura, observação e fotografias diariamente durante o período em que o parque fica aberto. Suas informações enriquecem o patrimônio histórico e cultural local.

Esporadicamente, o Jaraguá SP Post convida pesquisadores do bairro para publicarem textos sobre suas áreas de atuação. Recentemente, Lucélia foi uma das convidadas, sendo de sua autoria o conteúdo do artigo "Cientista da natureza observa e comenta o eclipse parcial do Sol a partir do bairro Jaraguá".


Saiba mais curiosidades e controvérsias sobre o Pico do Jaraguá


Pico do Jaraguá é o nome pelo qual se convencionou chamar aos picos do Jaraguá (também chamado de Morro Testemunho) e do Papagaio. Com 1.135 metros de altitude, este elevado se destaca na paisagem de São Paulo onde é tido pela prefeitura, agências de turismo e outras instituições como o mais alto da cidade.

Recentemente, no entanto, cicloturistas que transitavam pelo elevado das Torres Parque Taipas (dentro do município de São Paulo) sugeriram que este possui mais de 1.200 metros acima do nível do mar e é, dessa forma, mais alto do que o Pico do Jaraguá.

Os ciclistas realizaram medições por meio de aplicativos de GPS instalados em seus celulares. Leia o artigo "Reviravolta: Pico do Jaraguá não é o mais alto da cidade de São Paulo, sugerem cicloturistas" para visualizar a telemetria e entender melhor esse caso.

O PEJ esconde inúmeros segredos e curiosidades que, por sua vez, são de difícil acesso ao cidadão comum. Em 2016, por exemplo, o jornalista editor do Jaraguá SP Post, Marinaldo Pedrosa, visitou, fotografou e filmou as ruínas de uma antiga mina de quartzo instalada na região e publicou, pela primeira vez na história, tais informações na internet. Para conferir esse trabalho, leia o post "Conpresp quer tombar ruínas de antiga pedreira de quartzo localizada no Jaraguá".
Parte das ruínas de uma antiga mina de quartzo localizada dentro do PEJ (vídeo):

Uma curiosidade mais acessível é o incrível histórico de raios ascendentes e descendentes que ocorrem nas torres do Morro Testemunho. Leia mais sobre isso nos artigos "Pico do Jaraguá tem a maior média mundial de raios invertidos" e "No Jaraguá, Inpe registra raios invertidos simultâneos pela 1ª vez na história do Brasil".

Sobre o Autor:
Marinaldo Gomes Pedrosa Marinaldo Gomes Pedrosa é formado em Jornalismo pela UniSant'Anna. Vive no bairro Jaraguá desde 1976.

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